Estava caminhando por ruas desconhecidas.
Tudo parecia ser forjado por alguma energia superior, como se fosse feito a partir de um quadro preto e branco mal pintado.
Como se cada uma das coisas á sua volta tinham um propósito, e tudo veio de uma mente muito bem trabalhada, e organizada, pela precisão e riqueza de detalhes.
Existia uma distorção em tudo que se via, como se o mesmo objeto apresentasse várias formas e aspectos se fosse visualizado por muito tempo, e muita atenção.
Não existia nenhuma alma viva na rua. Fazia frio, e parecia que o calor não estava lá presente á muito tempo.
Dava para sentir no vento que batia sem parar, trazendo junto dele uma tensão iminente. Como se á qualquer momento alguma coisa terrível aconteceria, ou se tinha medo disso.
Perto de todo o cenário branco e preto, uma casa ali perto se destacava. Uma casa toda colorida, e convidativa. Parecia que tinha uma fonte de calor própria. Sons vinham da parte de dentro, sons de felicidade.
Cheirava á flores que remeteriam qualquer um á lembrancas felizes. Entrando na casa, apesar de parecer enorme por fora, tinha apenas um cômodo. Eram reproduzidos vários videos diferentes da mesma pessoa ao mesmo tempo. Todos mostrando ela apenas sorrindo em várias fases da vida.
Em uma das paredes, tinha uma mesa enorme com várias fotos, lembranças, recordações, que pareciam ter uma energia mais forte do que qualquer outro objeto existente naquele mundo utópico. Dava pra ver que existia muito amor á cada uma das coisas, cada uma das pessoas em cada foto.
Do outro lado da rua havia uma casa igual á anterior, só que essa se destacava por ser mais escura que as outras, como se toda a mágoa, e más recordações fossem guardadas lá. Não existia luz, não existiam cheiros reconfortantes, nada. Era doloroso apenas passar perto.
Ao entrar nela, via-se a mesma pessoa, mas em situações diferentes. Os videos que antes eram coloridos e cheios de vida e felicidade, agora são brancos e pretos, cheios de lágrimas e decepções. Assim como uma cópia fiel da estrutura da outra casa, existia também uma mesa enorme milimétricamente posicionada no mesmo espaço. Nessa mesa, existiam fotos, mas essas sem imagem nenhuma, fotos pretas, queimadas no lugar que um dia fora a imagem de uma pessoa amada. As lembranças, eram cartas escritas de proprio punho sobre as decepções, desgostos, medos, arrependimentos, que pareciam ser as mesmas dos videos. A pilha de cartas era enorme, maior do que a quantidade de objetos que transmitiam o amor na outra casa.
O céu era repleto de núvens, que reproduziam incessantemente vários sonhos, expectativas, realizações á se concretizarem. O pouco, ou aquilo que estava pela metade parecia não ser suficiente, tudo tinha que ser perfeito á sua maneira, como o mundo todo deveria ser.
O caminho ao longo da estrada não era bloqueado. Podia se ver além do horizonte com clareza, que existia um caminho á se seguir.
Era um caminho sinuoso, comprido, e cheio de pedras. Mas não existia pressa, nada de passos largos. Todos curtos, e cuidadosos. Todos passos sendo feitos um por um com todos que ama, vivendo um futuro brilhante, de vitórias, e choros de desabafo cheios de felicidade.
Nos perguntamos o que terá no fim do caminho. Não dá pra saber, só espero que quando eu chegar lá, todas núvens deixem de ser núvens, e passem a ser tudo que elas deveriam ser.